sábado, 24 de outubro de 2015

Decisão equivocada sobre a fosfoetanolamina

O Supremo Tribunal Federal obrigou a USP a fornecer fosfoetanolamina aos pacientes que a solicitarem mas esta orientação é polêmica. Provavelmente o juiz não se apoiou em opiniões de profissionais do ramo.
Nestes mais de 50 anos de exercício de prática médica, já vi muitas “ondas” terapêuticas. Todas passaram porque lhes faltava base real. Esta também vai passar e não deixar saudades. São três as razões.
1.    Nenhuma ação terapêutica tem eficácia curativa contra TODOS os tipos de câncer. Tumores resultam de multiplicação celular anormal mas as células diferem muito entre si como também existem diferentes formas de danificar estas células. É um sonho acreditar que haverá apenas um agente capaz de curar ou aliviar todos os tipos de neoplasia maligna.
2.    Cada medicamento contra câncer atua em uma ou mais fases do processo de multiplicação celular. Mas estas fases também ocorrem em células normais. Por isso, estes agentes terapêuticos sempre apresentam efeitos adversos significativos, que precisam ser bem conhecidos e ponderados em combinação com a esperança de resultados favoráveis.
3.     Nossa imunidade nos ajuda a eliminar a maioria das células anormais que poderiam causar câncer porque os mecanismos de proteção reconhecem e eliminam aquelas que podem iniciar um distúrbio maligno. Ampliar os mecanismos imunitários indistintamente é outra aspiração fantasiosa e qualquer tentativa neste sentido precisa ser estudada com muito critério, sob risco de complicações muito graves.
Por enquanto, as autoridades sanitárias poderiam formar um grupo de estudo capaz de propor um protocolo para cumprir as etapas de pesquisa, tanto em animais como em seres humanos. Pela sua complexidade e necessidade de observar diversos requisitos, não se pode pensar em um processo rápido como alguns sugerem. Também não se faz isto sem um amplo investimento para pagar profissionais, utilizar espaços de estudo e atendimento como também comprar diferentes tipos de equipamentos. Pode parecer um trajeto longo, caro e penoso mas não existem atalhos.      

        

domingo, 4 de outubro de 2015

Preste mais atenção às sombras e ensine isto às crianças

Uma atividade interessante para ensinar crianças é acompanhar o tamanho das sombras no decorrer do ano. De início, talvez você nem acredite mas, no final de junho, mesmo ao meio dia, a sombra é maior do que o objeto, pode conferir. Isto ocorre porque o astro rei está ao norte, sobre o Trópico de Câncer. Seus raios chegam aqui inclinados e não verticalmente. Ao dar palestra no Colégio Santo Ivo, com ajuda de um globo terrestre e de uma luminária (para simular o sol), procurei valorizar a observação da natureza como forma de obter conhecimentos, sem necessidade de ferramentas complexas ou caras. A criançada parece ter gostado muito. Com o globo, mostrei que o eixo de rotação é inclinado em relação ao plano definido pela translação da terra. Como esta inclinação se mantém, um dos hemisférios é mais iluminado numa ocasião e, seis meses depois, o outro hemisfério recebe mais luz. Com uma régua ou trena, as crianças poderão observar e medir o tamanho da sombra de um objeto. Na cidade de São Paulo, no final de junho, às 12 horas, embora o sol pareça ter chegado ao ponto mais alto do céu, haverá uma sombra grande. Coisa diferente ocorre no final de dezembro, ao meio dia, quando o sol fica perpendicular à superfície, ou “a pino”, definindo a linha do Trópico de Capricórnio. A sombra é zero. Pode-se dizer que o sol “passeia” (é a terra que se move) entre os dois trópicos. Também devemos atentar para a posição das “orelhas de pau” que são fungos que crescem quase somente na face sul das árvores, onde o sol nunca chega (em nossa região).  Com base nestes conhecimentos, simulei o posicionamento de uma casa. Se as janelas do quarto se voltam para face norte receberão mais sol e isto é bom, principalmente, se a criança tem rinite ou bronquite, pois o sol elimina ou reduz a proliferação de ácaros e fungos. Mostrei que a face leste também é boa porque toma o sol na manhã e o cômodo fica mais fresco à tarde. Em nossa cidade, face sul é a pior porque nunca receberá luz direta do sol mas apenas a indireta. Também falei da necessidade da radiação solar para a fabricação de vitamina D na pele, para estabelecer o ritmo circadiano (cerca de um dia) e outras funções. Disse que o excesso de sol pode se relacionar com queimadura, envelhecimento e câncer.

NB: evento de 21 deste vai esclarecer importância do sol na saúde e como forma de economizar na conta de luz. Veja nota abaixo

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Evento explica vantagens, riscos e uso prático da energia solar

Brasil é o maior país cuja área fica entre os trópicos, todos os outros de grande extensão ficam “acima” ou “abaixo” dos trópicos. Nenhum outro país recebe tanta luz solar. Mas ainda existe um desperdício da luz solar como fonte de energia.
Crianças deveriam aprender mais sobre o sol. Por exemplo, observando as sombras no decorrer do ano. Em São Paulo, cuja área está cortada pelo trópico de Capricórnio, mesmo ao meio dia, no final de junho, as sombras são maiores do que os objetos.  No final de dezembro, ao contrário, as sombras ao meio dia chegam ao zero (sol a pino). Outro exemplo: fungos das árvores (orelhas de pau) estão sempre na face sul dos troncos velhos.
A econômica energia fotovoltaica (derivada da luz solar e que não se restringe ao aquecimento de água) é muito interessante e só deve crescer em nosso país.
Venha conhecer melhor todas estas questões no evento abaixo.

Aspectos médicos e econômicos
 relacionados à luz solar

Data: 21 de outubro de 2015 (4ª feira)
Local: auditório do IE Santo Ivo. Pça Dr. José Getúlio de Lima, 26- Lapa. São Paulo
Mediadora: Profa Hidely Lopes dos Santos
Inscrições gratuitas

 PROGRAMA

19h30 as 20hs, no hall do auditório: recepção
20h as 20h20: “Luz solar: benefícios para a saúde
  • Paulo Aligieri  
Médico Pediatra           

20h20 as 20h40: “Luz solar: riscos para a saúde
  • Patrícia Coutinho Pertel  
Médica Dermatologista  

20h40 as 21h: Uso prático e vantagens da energia fotovoltaica”
  • Renato Fogagnoli
Engenheiro elétrico

21h as 21h30: aberto a perguntas
Sorteio entre os presentes:
- Livros infantis “A semente da felicidade” Autor: Francisco Ferreira (3 exemplares)
- Casinha pink – Brinquedo oferecido por Tró-Ló-Ló Brinquedos
- Outros livros infantis
Inscrições gratuitas:
- pelo telefone (11) 3831-3542
- enviando nome e telefone para o email p.aligieri@uol.com.br


terça-feira, 8 de setembro de 2015

A cólica de sexta-feira


A consulta aconteceu numa tarde de sexta-feira. O menino tinha perto de cinco anos de idade e a mãe informava que ele sentia cólicas abdominais fortes com alguns vômitos, há cerca de duas horas. Não tinha outras queixas importantes nem constatei qualquer alteração no exame físico. Foi medicado com medicamentos antiespasmódicos e melhorou. Não soube mais da criança até a sexta-feira seguinte, quando a mãe voltou pois, há poucas horas, apresentava quadro semelhante ao anterior. O exame físico também não ajudou, como ocorreu na consulta anterior. Outra semelhança é que a criança, na sexta a noite, iria ficar com pai, que tinha se separado mãe. Entrando em detalhes sobre esta questão, percebi que a jovem mãe ainda sentia muita mágoa, desconfiança e ressentimento contra o ex-marido e não fazia questão de esconder tais sentimentos negativos. Em sua opinião, o ex-marido não sabia alimentar corretamente a criança e nem como cuidar dela. Talvez, de forma inconsciente, pretendia colocar a criança também contra o pai. E isto deixava o garoto muito inseguro na hora de ficar com ele, longe da mãe, durante o final de semana, como tinha sido estipulado pelo juiz. O diagnóstico era dor abdominal psico-funcional.
A dor abdominal psico-funcional é uma condição bem conhecida dos pediatras. Surge em crianças predispostas, geralmente em idade escolar ou pré-escolar. A crise de dor aparece em fases de ansiedade, por exemplo, antes de provas, audições ou mudanças. Podem preceder até eventos muito aguardados pela criança, como a sofreguidão anterior às viagens ou visitas de pessoas queridas. A dor quase sempre se localiza na região ao redor do umbigo, sem irradiação e os vômitos não são raros. O exame físico é praticamente normal, permitindo que o médico exclua uma enfermidade aguda de caráter grave, tipo apendicite. Antecedentes de dor abdominal ou doença gastroduodenal em pessoas da família são comuns.

No caso acima descrito, o encontro com o pai trazia muita apreensão ao menino pois gostava dele mas estranhava sua nova companheira e tinha medo dela. Mas o pior era a insegurança, transmitida pela mãe, quanto à capacidade do pai para cuidar dele.

NB: 
Aos meus clientes: houve alteração no meu contrato com o estacionamento, se marcar consulta, informe-se sobre as mudanças. :

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Decidiu viajar? Prevenção de problemas da saúde tem que ser agora


Quem pretende viajar, seja a negócio, turismo ou religião, não deve esquecer a prevenção de problemas com a saúde. A antecedência é indispensável porque eventuais vacinas a serem usadas só geram proteção após um período que varia de dias até meses (se forem indicadas duas ou mais doses). Se vai ao exterior, consulte site da OMS http://www.who.int/ith/en/. Lá há conselhos conforme cada país a ser visitado além de outras informações. Por exemplo, veja detalhes sobre a síndrome respiratória do Oriente Médio causadas por um coronavírus, que parece ter pulado dos camelos para a espécie humana.
No site da Anvisa, na secção de portos, aeroportos e fronteiras, há normas gerais excelentes, valiosas até para quem não vai sair do bairro. Visite http://www.anvisa.gov.br/viajante/
Veja as recomendações no item alimentação.
• Evite adicionar gelo nas bebidas; • Assegure-se que o alimento esteja bem cozido, frito ou assado; • Fique atento à temperatura dos alimentos expostos para venda. Alimentos perecíveis devem ser mantidos em baixa temperatura (abaixo de 5° C) e os quentes bem aquecidos (acima 60 °C); • Evite o consumo de frutos do mar crus; Moluscos e crustáceos podem conter toxinas que permanecem ativas mesmo após a cocção; • Não consuma leite nem seus derivados crus; • Não consuma preparações culinárias que contenham ovos crus; • Frutas e verduras que possam ser descascadas e cujas cascas estejam íntegras, podem ser consumidas cruas; • Quando for consumir alimentos exóticos, seja prudente e não exagere; • Evite o consumo de alimentos vendidos por ambulantes; • Alimentos embalados devem conter no rótulo a identificação do produtor, data de validade e a embalagem deve estar íntegra.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Neymar tem caxumba. Você já tomou 2 doses da vacina?

Se você nunca teve caxumba, precisa de duas doses da vacina (com intervalo mínimo de três meses) para se proteger. Ela está sempre associada a duas outras vacinas: rubéola e sarampo. Ou mais três quando também se inclui o componente para proteção contra varicela. Na década de 60, antes da vacina, caxumba era comum. Vi muitos casos se complicarem com pancreatite (dor abdominal, vômitos), encefalite (febre, dor de cabeça), inflamação testicular e outros problemas. A vacina tríplice faz parte de programa nacional gratuito e nossa população tem procurado a vacina tríplice viral. Em alguns países, grupos anti-vacina dizem que elas são uma forma de ganhar dinheiro e outras inverdades. Não é mentira que a própria vacina da caxumba (contendo vírus atenuado) pode causar sintomas mas a frequência é muito menor do que ocorre com a doença selvagem. No Reino Unido, uma fraude, hoje bem esclarecida, apontava a vacina contra sarampo como causa de autismo. Era uma fantasia bem montada. A população ficou temerosa das vacinas em geral e reduziu a cobertura vacinal; em consequência, voltaram com força infecções que pareciam extintas. Foi necessário um caríssimo programa de esclarecimento para reverter a situação.


sábado, 18 de julho de 2015

Sarampo ainda mata, vacine-se




Sarampo está voltando e mata pessoas. Surtos importantes ocorreram recentemente em Pernambuco e Ceará. Antes de viajar para qualquer lugar, verifique se já tomou 2 doses da vacina. Há poucos dias, nos Estados Unidos, uma senhora faleceu devido ao vírus. Como ela tinha outras doenças, os médicos tiveram dificuldades na identificação da causa do seu agravamento e não fizeram diagnóstico de sarampo em vida. Grupos radicais e mal informados contra a vacina, ao lado de uma legislação que permite recusa a vacina baseada em crenças pessoais são as causas da recente epidemia naquele país. A internet tem facilitado a difusão de conceitos equivocados, com aparência de conteúdo científico, por exemplo, “as vacinas contém mercúrio como conservante e este é o pior veneno que existe” ou “a vacina causa autismo”. A liberdade para as pessoas não se vacinarem com base em crenças pessoais pode parecer apenas o respeito a um direito individual. Este respeito pode gerar conflitos com o bem estar da população. Na verdade, existem contra-indicações médicas a algumas vacinas. Se um indivíduo é imunodeprimido (faz quimioterapia, tem HIV, idade avançada, etc)  pode ser arriscado o uso de certas vacinas compostas de agentes vivos. Ele ficará protegido se houver uma boa cobertura vacinal entre as pessoas que não tem distúrbios imunitários e nos quais a vacinação praticamente não envolve riscos. Todas as vacinas aprovadas são seguras para quase 100% das pessoas e as reações são geralmente pequenas e sem importância. Então, não marque bobeira, vacine-se pois vale a pena, os postos o atendem sem custo.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Zé gotinha, quem diria, precisa desaparecer!


Ainda não se definiu uma data mas o emprego da vacina oral contra a poliomielite (ou seja, o “Zé gotinha”) vai terminar, não só no Brasil, mas em todo o mundo. O Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde já começou a tarefa: as crianças que comparecem aos postos oficiais com dois e quatro meses de idade não recebem mais a gotinha da vacina oral contra a paralisia infantil que é conhecida como “vacina Sabin”. Esta vacina contém vírus da própria doença que foram enfraquecidos para não causar malefícios e apenas provocar no corpo uma ótima proteção contra os vírus selvagens. Nestas duas visitas, os bebês estão recebendo uma injeção com outra vacina, também excelente, que não contém agentes vivos e é composta por agentes inativados, ou seja, mortos. Os profissionais mais antigos reconhecem esta poderosa arma preventiva como “vacina Salk”. Ela leva o nome de um pesquisador que elaborou sua vacina alguns anos antes de Sabin. Usando a vacina Salk, algumas nações eliminaram a paralisia infantil antes do aparecimento da vacina Sabin. (É bom lembrar que, no mesmo atendimento, as crianças recebem, a vacina oral contra rotavírus). Não há dúvida que a famosa gotinha prestou um serviço estupendo no sentido de eliminar a paralisia infantil da superfície terrestre. Seu uso é muito prático e ela é bem conhecida pela população. Nas visitas subsequentes ao posto de vacinação, a vacina usada contém vírus vivos atenuados. A transmissão da paralisia infantil pelo vírus selvagem ainda persiste no Paquistão, Afeganistão e Nigéria, países onde os conflitos e guerras dificultam muito o trabalho das equipes de saúde. Por isto, a gotinha ainda tem uma jornada difícil pela frente. Mas é fácil entender por que seus dias estão contados. Acontece que ela é formada por vírus vivos atenuados e capazes de recuperar sua agressividade e causar paralisia. A doença causada pelo vírus vacinal reativado é um fato que não se pode refutar. Isto praticamente não aparece em países em todas as pessoas estão vacinadas ou, em outras palavras, há alta cobertura vacinal. Mas ocorre sim, com frequência crescente, em algumas regiões de cobertura baixa. Um detalhe essencial é que existem três tipos de vírus causadores da poliomielite (tipos 1, 2 e 3) e a vacina contém formas abrandadas dos 3 tipos. O tipo 2 selvagem já se considera eliminado da população humana mas (em mais de 97% das vezes) é este tipo, temporariamente atenuado, que tem se revelado capaz de se tornar, de novo, o grande destruidor das células nervosas.  A Organização Mundial da Saúde vem trabalhando muito em diversos aspectos relacionados às vacinas, inclusive no planejamento de uma substituição global e uniforme da vacina oral em favor da injetável. Mas antes, haverá a substituição da vacina oral atual que contém configurações suavizadas dos três vírus para uma forma bivalente, sem o tipo 2.     
Com o emprego da vacina Salk a reversão maléfica é impossível porque é composta de microrganismos mortos. Uma das suas características mais importantes é a possibilidade de ser combinada na mesma ampola com outras vacinas que os bebês precisam receber. Por exemplo, a vacina conhecida pelo apelido de “hexa”, que é oferecida nos postos privados de vacinação, contém componentes que protegem contra difteria, tétano, coqueluche, hemófilo b (uma bactéria terrível que causa meningites e pneumonias) e hepatite B (este B é mesmo maiúsculo, o outro é minúsculo), além do componente Salk.


Quem quiser encontrar mais detalhes desta evolução na imunização deve ver, pelo menos, Immunization Systems Management Group of the Global Polio Eradication Initiative  Introduction of Inactivated Poliovirus Vaccine and Switch from Trivalent to Bivalent Oral Poliovirus Vaccine - Worldwide, 2013-2016. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2015 Jul 3;64(25):699-702

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Tosse comprida está voltando de forma sorrateira. Ela pode matar bebês

A coqueluche ou tosse comprida está aumentando de incidência em todo o mundo, apesar da vacinação das crianças. Para a maioria das vítimas, o quadro não é grave evoluindo como uma tosse suportável que dura semanas. Mas a infecção pode ser muito agressiva e levar ao óbito as crianças de poucos meses, pois elas não tiveram tempo de se vacinar com três doses. Por isso, já consta da orientação oficial do Ministério da Saúde a vacinação das grávidas contra a doença. Na mesma aplicação provoca-se uma proteção também contra tétano e difteria.
Nos postos oficiais, a proteção das crianças contra coqueluche é feita com três doses da vacina pentavalente (difteria, tétano coqueluche, hepatite B e Hib), aplicada aos dois, quatro e seis meses de vida. No atendimento particular, existe a vacina “hexa” que protege contra as doenças citadas e também contra a paralisia infantil, na mesma seringa. Nos postos oficiais esta última é administrada separadamente, no mesmo dia. Entre 2011 e 2013, o Ministério da Saúde registrou 4.921 casos de coqueluche em menores de três meses, 35% do total do país neste período, ou seja, 14.128 casos. Essa faixa-etária é ainda mais afetada em relação aos óbitos. No período, foram 204 óbitos, o que representa 81% do total nacional, que foi de 252 mortes.

Para explicar este retorno da contaminação pela bactéria Bordetella, é preciso lembrar que o primeiro adoecimento por coqueluche provoca uma imunidade que não é vitalícia. A pessoa pode ter um segundo episódio, anos depois. Com a vacinação, a perda da proteção também acontece. Segundo alguns estudos, esta queda da imunidade talvez seja mais rápida quando se emprega uma vacina mais  moderna, chamada “acelular” que provoca menos dor local do que ocorre com a vacina clássica, esta que é encontrada nos postos públicos. Talvez apareçam estudos mostrando a necessidade de mais reforços do que são feitos atualmente.    

domingo, 7 de dezembro de 2014

Analgésicos podem dar sono na mãe e no bebê além de reduzir a produção de leite.

Analgésicos podem dar sono na mãe e no bebê além de reduzir a produção de leite. Um dos analgésicos mais vendidos no Brasil contém dipirona, prometazina e adifenina. Promove ótima analgesia, mas encerra o risco de causar sono na mãe e no recém-nascido, além de reduzir a secreção do leite que pode impactar no desenvolvimento da criança.

A bula deste produto informa (1):

CONTRAINDICAÇÕES: Durante a gestação e aleitamento. É desaconselhável o seu uso durante a gravidez devido aos riscos de efeitos sobre o sistema cardiovascular fetal, principalmente no terceiro trimestre de gravidez e durante a lactação. Perguntar à paciente se está amamentando. A amamentação deve ser evitada durante e até 48 horas após o uso deste medicamento devido a possível excreção pelo leite materno.

 A prometazina é um anti-histamínico de primeira geração, grupo contraindicado na lactação pelo seu efeito anticolinérgico que inibe a secreção do leite(2,3). Pela sonolência que pode provocar no recém-nascido e pela possibilidade de levar à inibição do reflexo de sucção, pode afetar a nutrição. Por sua vez, a adifenina é um parassimpatolítico, isto é, outro anticolinérgico, usado em espasmos vesicais ou urinários. A bula do produto aponta efeitos anticolinérgicos que reduzem as secreções de modo geral(4) podendo, ainda, potencializar o efeito anticolinérgico de outros fármacos. A bula também informa que o aleitamento deve ser interrompido no dia que a mãe faz uso e mais 48 horas. Interromper o aleitamento não é um ato simples e precisa ser muito bem ponderado. Existem diversos outros analgésicos com melhor relação entre risco e benefício que podem ser administrados a mãe.

São maiores os efeitos adversos deste analgésico composto quando a lactante recebe o produto sistematicamente, a saber, a cada seis ou oito horas, prática comum (usa-se o termo “protocolo”) em muitas maternidades de são Paulo. A Organização Mundial da Saúde considera este medicamento compatível com a amamentação se dado em doses únicas, alertando para evitar as prescrições de horário, além de monitoramento do bebê quanto à ocorrência de sonolência excessiva(5) e outros efeitos adversos.
No comércio, existe outro analgésico composto que contém codeína, (substância parente da morfina) totalmente contraindicado para mães lactantes e também prescrito de forma indevida para este grupo.


Referências bibliográficas:

1)Bulário Eletrônico da ANVISA: http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmResultado.asp#. Acesso em  11/11/2014.

2)Skidgel RA, Erdos EG. Histamina, bradicinina e seus antagonistas. Capítulo 24 do livro “Goodman & Gilman – As bases farmacológicas da terapêutica” de Brunton LL, Lazo JS, Parker KL. 11ª edição McGraw-Hill Artmed. São Paulo, 2010. Pgs. 563-84.

3)Kastrup EK (editor). Drug – Facts and comparisons. JB Lippincott Philadelphia. 1982 ed. Pg 627.

4)Guidechem Chemical Trading Guide. Disponível em <http://www.guidechem.com/reference/dic-340.html>. Acesso em 04/04/2014.

5)Anon: Breastfeeding and Maternal Medication. World Health Organization, Geneva, Switzerland, 1995.

Este texto foi parcialmente publicado no mais recente BOLETIM DE FARMACOVIGILÂNCIA do Centro de Vigilância Sanitária da S. Saude de S.P. Acesse http://www.cvs.saude.sp.gov.br/zip/BOL_4_%20layout_%20final_corrigido.pdf

NB: ajude a divulgar, principalmente para obstetras.

domingo, 18 de maio de 2014

Sal de cozinha pode ser salvação ou arma mortal

O sal de cozinha, cloreto de sódio, administrado por via oral ou intravenosa, pode ser a salvação de crianças ou adultos que estejam sofrendo desidratação. Mas, na dose errada, o mesmo sal pode ser mortal. Na Índia, há pouco tempo, houve dois casos em que um produto farmacêutico que continha uma quantidade de sal para ser diluída em 1 litro de água, foi dissolvida, por engano, em apenas um copo.

As duas crianças vítimas das falhas, passaram muito mal e uma delas veio a falecer. Há alguns anos, nos Estados Unidos, uma mãe perturbada dava sal às escondidas e quase matou uma criança de um mês de idade que estava internada devido à diarreia intensa. Estes dois exemplos ilustram bem que a diferença entre um medicamento e um veneno está na dose. A toxina produzida pelo bacilo do botulismo é tão forte que um feijão contaminado tem força para matar dezenas de pessoas.

Em dose e localização corretas, a mesma toxina é o botox, que embeleza milhares de homens e mulheres. Os sais de ferro corrigem a anemia carencial mas são muito irritantes para o estômago e já houve casos de gastrite aguda fatal em crianças pelo exagero da dose. Por isso, a administração de sulfato ferroso ou outro medicamento contendo ferro, geralmente é feita em doses progressivas, que dão tempo para o aparelho digestivo se adaptar a esta forma de tratamento.

domingo, 11 de maio de 2014

REFRIGERANTES E SUCOS ARTIFICIAIS NA CAUSA DO EXCESSO DE PESO.

REFRIGERANTES E SUCOS ARTIFICIAIS NA CAUSA DO EXCESSO DE PESO.
Aumento do peso documentado em crianças de todas as regiões brasileiras

O percentual de crianças com peso excessivo vem crescendo em todas as regiões do país. Pesquisas envolvendo milhares de crianças com idades entre 2 e 5 anos mostraram que índices de excesso de peso aumentaram, em valores médios, de 3% em 1989, para 3,4% em 1996 e 7,8% em 2006. Em termos regionais, os maiores aumentos ocorreram no sul (de 3,4% a 7,8%) e no norte (de 1,6% a 7,2%). Os dados se baseiam numa pesquisa realizada por investigadores da Universidade Federal de São Paulo e da Universidade Federal de Juiz de Fora, publicada recentemente. Um dos fatores associados ao aumento de peso foi o consumo de refrigerantes e sucos artificiais mais de 4 vezes por semana. Obesidade e o sobrepeso não são apenas problemas estéticos; suas repercussões na saúde podem ser graves e ainda piores quando os desvios no peso se instalam precocemente na vida. Os pesquisadores destacam que o aumento na incidência do excesso de peso em nosso país coincide com mudanças econômicas e políticas como o fim da ditadura militar, consolidação da democracia, controle da inflação e estabilização econômica. Elas levaram a modificações no estilo de vida e nos hábitos alimentares de todas as faixas etárias mas principalmente dos pré-escolares que sofrem mais influência da propaganda nos meios de divulgação, em especial, da televisão. Uma parte da explicação para os maus hábitos alimentares se encontra nas pessoas que tiveram carências alimentares com seus resultados negativos no passado e tendem ao equívoco de valorizar o excesso de peso, sem se dar conta de suas sérias consequências na saúde e no conforto pessoal.
Fonte:

Silveira, Jonas Augusto C, Fernando Antônio B. Colugnati, Monize Cocetti, José Augusto A.C. Taddei. Secular trends and factors associated with overweight among Brazilian preschool children: PNSN-1989, PNDS-1996, and 2006/07. Pediatr (Rio J). 2014;90:258-66. Visite artigo <http://jped.elsevier.es/en/secular-trends-and-factors-associated/articulo/90304523/>

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Vitamina C tem riscos e não previne gripe nem resfriados

Chance de efeitos indesejáveis graves é maior se já existe calculose urinária

Muita gente bem nutrida que não precisa de qualquer suplemento alimentar toma doses diárias de vitamina C pois acredita que, “se não fizer bem, não pode fazer mal”. Parece uma forma simples de prevenir gripes e resfriados. É um duplo engano. Nenhum estudo sério mostrou esta capacidade de proteção. Além disso, o uso sem controle do ácido ascórbico (que é o outro nome desta vitamina) aumenta o risco de problemas renais em certas pessoas predispostas. O metabolismo destas pessoas apresenta uma falha hereditária que favorece a eliminação exagerada de sais chamados oxalatos que resultam na formação de cálculos que lesam rins e vias urinárias.

A vitamina C aumenta claramente este risco. No uso prolongado, até pessoas normais podem ter excesso de oxalatos na urina e podem sofrer as consequências.  Basta ler a bula dos produtos que tem a citada vitamina. Mas é preciso atenção às informações pois as palavras e expressões usadas nas bulas nem sempre são muito claras. Quanto mais focalizamos os diversos estudos científicos relacionados a estes problemas ficamos mais convencidos do risco do uso diário de ácido ascórbico. Até pessoas sem antecedentes familiares de calculose podem ter excesso de oxalato na urina. Um relato recente confirma, mais uma vez, aquilo que já se sabia sobre o problema. Uma mulher de 33 anos apresentava insuficiência renal crônica de origem não esclarecida.

Como não havia antecedentes de calculose urinária, não se fez a dosagem de oxalato no sangue nem na urina. Ele faz transplante renal com rim doado por um familiar compatível. De inicio, houve sucesso aparente mas logo o rim passou a falhar. A biopsia mostrou lesão dos túbulos renais por excesso de oxalato. Biopsia da medula óssea mostrou que neste tecido havia depósito de oxalato. Nesta ocasião, ela informou que vinha tomando diariamente 2g de vitamina C por muitos anos. Foram infrutíferas as tentativas médicas de sanar os distúrbios e a paciente voltou à insuficiência renal e à necessidade de hemodiálise.  

Fonte: Yaich S et al. Secondary oxalosis due to excess vitamin C intake: a cause of graft loss in a renal transplant recipient. Saudi J Kidney Dis Transpl  2014 Jan;25(1):113-6.

sábado, 29 de março de 2014

Semelhanças perigosas: que acontece para quem não liga para a bula?  



Em 2005, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos foi informado de um equívoco no tratamento de pacientes que eram atendidos em uma clínica gratuita para gays e lésbicas de Nova Iorque. Durante o período de 1999 a 2004, pacientes com diagnóstico de sífilis tinham recebido uma medicamento composto de dois tipos de penicilina: do tipo benzatina e do tipo procaína em partes iguais. Na verdade, o que se recomenda, para esta doença é o dobro da dose da penicilina benzatina que havia no produto dispensado, sem a presença da penicilina procaína. Os dois produtos se pareciam muito. O nome comercial do produto indicado é Bicillin A-P . Um fato chocante é que a bula do produto administrado (Bicillin C-R) dizia que ele não era indicado para tratar sífilis mas sim para pneumonias e infecções de garganta. Demorou cinco anos para alguém ler a bula e dar o alarme. A falta de percepção do erro foi facilitada porque a soma das duas formas de penicilina tinha ação razoável sobre a doença, curando muitas pessoas. No entanto, alguns casos evoluíram para consequências neurológicas gravíssimas. Esta evolução é lenta, não causou alarme na equipe da saúde pois as complicações também podem ocorrer, em menor número, quando se instala o tratamento ideal, com a penicilina benzatina na dose correta. Após este episódio muito doloroso, envolvendo quase 500 pessoas atendidas, os produtores, em colaboração com as autoridades da saúde, fizeram mudanças na apresentação dos produtos no sentido de facilitar a diferenciação. Os conhecimentos adquiridos sobre os medicamentos depois que eles entram no mercado fazem parte da chamada “farmacovigilância”. Certas reações indesejáveis sérias, porém mais raras, só são detectadas após a aprovação da venda e consumo pela população. Por exemplo, uma primeira vacina contra o rotavírus em raras crianças causava a intussuscepção intestinal, que é uma espécie de inchaço e entupimento dos intestinos, e foi retirada do mercado nos Estados Unidos. 

sábado, 1 de março de 2014

Criança quase em coma: grande susto

Criança em coma nem sempre é caso grave

Anos atrás, eu trabalhava muito em Pronto Socorro Infantil. Quase no final de um plantão, chegou uma criança de 5 anos, praticamente em coma. A família tinha deixado a criança por algumas horas com a empregada, mas esta estava muito ocupada nos quartos da residência. Ao retornarem à casa encontraram a criança “dormindo” muito, na sala. Era uma criança normal até este episódio. Quando procurei cheirar o hálito do pequeno, a mãe me disse que tinha esfregado álcool no rosto numa tentativa de acordar o menino.

Um dos familiares usava medicamento sedativo diariamente, mas garantiram que a caixa não fora tocada. Logo pedi exames e prescrevi soro glicosado endovenoso. O colega que assumiu o plantão teve o prazer de ver a criança melhorar rapidamente. Após confabulações entre os familiares, eles informaram que encontraram um frasco de licor “escondido” atrás de um brinquedo grande, com nível diminuído. Uma das pessoas da família ingeria diariamente algumas doses desta bebida. Na verdade, o caso era um quase coma alcoólico e o menino se recuperou totalmente. É provável que a família já sabia da ingestão da bebida mas, de inicio, procurou esconder, talvez pensando em não expor o parente etilista. Em algumas condições, o médico precisa ter “desconfiômetro” aguçado e buscar dados que a família prefere esconder, por exemplo, nas casos de violência contra a criança mas este será outro post.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um cão fofo pode prejudicar uma criança?

Minha cliente trouxe o filho de 6 anos ao consultório informando dor de barriga e febre com 4 dias de duração. Dois dias antes da consulta, o menino foi levado  ao serviço de urgência onde foi examinado e submetido a radiografia simples de abdome em pé e deitado, com resultados normais. Com suspeita de virose, recebeu medicação sintomática.

Como não houve melhora, veio ao meu consultório.  A dor se localizava próxima ao umbigo, sem irradiação, pouco definida e não impedia a atividade da criança. O estado geral era muito bom, com boa disposição geral. Ao exame físico, nada havia de importância, inclusive na palpação abdominal. Também suspeitei de alguma virose que se curaria sem medicação. Sugeri somente analgésicos. A família voltou ao consultório no dia seguinte, sem melhora do quadro.

Neste atendimento, perguntei especificamente sobre alguma situação de estresse psicológico e a mãe negou. Solicitei diversos exames mas, uma hora depois da consulta a mãe telefonou porque se lembrou que a cão da família tinha sido operado recentemente e todos estavam muito preocupados porque ele não deveria brincar nos primeiros dias após a cirurgia, sob risco de se complicar o problema. O menor gostava muito do animal e tinha dito à mãe que o contato com o  cachorro lhe provocava “um frio na barriga”.  Perante esta nova informação,  orientei a mãe para que conversasse com o filho, explicando que o cão já estava melhor e  que logo poderia brincar. Suspendi exames. Após esta conduta, os sintomas desapareceram  totalmente. 

Revendo dados do menor, constatei que, um ano antes, ele já tinha apresentado um episódio em que as fezes escapavam e sujavam a cueca, numa ocasião em o menor tinha conflito entre ficar na sala para se alimentar ou descer ao pátio e brincar com os amigos. Posteriormente teve uma fase de incontinência urinária sem motivo aparente, durante poucos dias e que regrediu totalmente sem medicação. Orientei para ludoterapia que está em curso.     

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Evacuação vermelha, era sangue?

No dia 10/01/2014, pela manhã, me ligou mãe de LCM, criança de 2 anos e 4 meses, informando que o menor apresentava diarreia líquida, sem cheiro, sem muco ou sangue, sem cólica nem febre. Não havia problema semelhante na família nem outros dados interessantes. Orientei o tipo de alimentação e prescrevi uso de um soro oral comercial, a vontade. A noite do mesmo dia mãe tornou a ligar, muito preocupada e informou que a criança estava evacuando “puro sangue”, na expressão dela. Tinha fotografado a fralda e se ofereceu para enviar foto por email, o que aceitei. Como não havia outras manifestações  importantes suspeitei que ela tivesse ingerido alimentos com corantes que poderiam explicar a queixa. De fato, o soro sabor morango que a criança tinha usado apresenta a cor que aparecia nas fezes. A interrupção do uso deste produto realmente eliminou o sintoma.  


sexta-feira, 29 de março de 2013

Causa real da morte da neta de Portinari no banheiro

 A neta de Portinari morreu no banheiro. O chuveiro era aquecido a gás. Já houve muitas outras mortes semelhantes. Na casa que fica em frente a minha, um jovem casal teve o mesmo tipo de fim. Quem mata não é o gás do butijão nem de rua. Qualquer forma de combustão em ambiente fechado vai aos poucos acabando com o oxigênio do ar. O fogo prossegue mas, ao invés de produzir gás carbônico (CO2), produz CO. Este gás não tem cheiro, e se gruda fixamente à hemoglobina. Como não é percebido vai provocando sonolência progressiva e mata. Quando o furacão Katrina devastou cidades nos estados Unidos, as pessoas ficaram sem eletricidade para suas residências. Muitas compraram geradores tocados a gasolina que ficavam no interior das residências. Houve diversos casos de intoxicação pelo monóxido e algumas mortes até as autoridades orientarem a população.